Conheça a arte em que a filosofia e a gastronomia se completam para gerar autoconhecimento

Você se sente culpado quando come doce? A resposta foi quase unânime para sim, as pessoas se sentem culpadas quando comem doce. Essa foi uma das primeiras perguntas que Rudra Das fez no Workshop Gastrosofia.

Que a gastronomia estuda a culinária e a filosofia o pensamento humano nós sabemos. O que parece novo é a junção dessas duas artes: a gastrosofia. Sim, o termo vem da junção de gastronomia e filosofia com o intuito de gerar um pensamento reflexivo e consciente sobre a alimentação e as razões internas que nos direcionam a forma que nos nutrimos. Talvez você nunca tenha parado para pensar que a preparação de pães é um desafio de paciência porque o tempo da fermentação da massa é longo e é preciso esperar, mas a gastrosofia propõe o pensamento sobre essa questão também com outros tipos de alimentos.

“Gastrosofia é uma mistura entre gastronomia e filosofia.É um projeto em conjunto com a Rayssa Lima que é cheff de cozinha. Tentamos trazer a gastronomia de uma forma filosófica, não somente para agradar o paladar mas também para agradar a mente. A gastrosofia é essa combinação da culinária com o pensamento reflexivo da filosofia”, explica Rudra Das que traz para Poços de Caldas a série Cozinha e reflexão que tem como primeiro módulo o Workshop Confeitaria e Infância. “Eu e o Rudra quisemos um nome que despertasse curiosidade e ao mesmo tempo um estalo em quem lesse”, completou a cheff Rayssa.

O estudo das duas áreas permite que a pessoa faça uma reflexão profunda e traga algumas memórias que podem gerar uma relação diferente com a alimentação e a forma de ver as refeições. Esses processos de autoconhecimento e autopercepção podem gerar resultados significativos. “Muitas vezes acabamos associando o ato de se alimentar como algo somente para matar a fome. Também como algo para ficar forte para quem vai pra academia. A falta de comida como algo para quem quer emagrecer… Mas a relação com a comida é muito parecida com a relação que nós temos com outras pessoas,” conta Rudra. E entender essas relações é entender também o que nos move. “A importância em si se deve ao fato de estarmos com os dois temas no nosso cotidiano”, disse Rayssa ela ainda completou que unir gastronomia e filosofia também é sair do convencional. “ Queremos mostrar que nenhum dos dois temas precisa ser maçante ou pesado, mas sim abordado de maneiras interessantes e simplificadas”.

Cozinha e reflexão

A Gastrosofia é dividida em cinco categorias e cada categoria de gastronomia tem relação a um item da área de filosofia. O primeiro dos itens estudados é a relação dos doces e da infância. “A confeitaria estará relacionada a infância porque é na infância que temos aquele desejo doido por doce, comemos sem culpa… E a medida que vamos crescendo o doce que era algo prazeroso acaba se tornando um peso. Não podemos mais comer doce porque engorda ou porque faz mal”, explica ele. Entender as relações que são estabelecidas como cada alimento é importante para entender o que é gerado quando consumimos aquilo.

Na segunda categoria, dos drinks, é trabalhado a parte da sexualidade. Uma das reflexões propostas é: “será que quando as pessoas realmente se arrependem de coisas feitas quando bebem ou a bebida é apenas uma desculpa para fazer coisas que não teriam coragem sóbrias?” e sugere um olhar para o entendimento das próprias atitudes.

A categoria da massa remete a tradição. É a relação do domingo com a família, da refeição natalina onde todos se reúnem e que, algumas vezes dá certo, outras não.

Em seguida é apresentada a categoria da comida saudável que nos remete a alimentação consciente e também a alimentação e sustentabilidade. Rudra diz que é se alimentar olhando para saúde e não apenas para o paladar. A outra categoria, dos pães está relacionada a paciência, tolerância e tenacidade. Para fechar, a categoria das carnes está relacionada ao debate sobre competitividade, sociedade e consumismo.

Os resultados das reflexões propostas são um olhar para o interior de cada um. “As pessoas passam a ver a alimentação de uma forma diferente. Muito mais que comer na frente da televisão, comer de qualquer jeito e só colocar comida para dentro… A comida se torna algo mais significativo e consciente e junto com isso a pessoa poderá se conhecer melhor e perceber porque tem determinadas atrações por algumas comidas e qual o tipo de relação que ela tem com a alimentação. Ela percebe como vê com o planeta”, conclui Rudra.

 

Workshops – mão na massa e filosofia

Sobre os workshops Rudra Das explica: “As pessoas podem esperar muitas memórias, muitas histórias da infância e muitas coisas peculiares de cada um. Isso vai ser a parte principal porque o Gastrosofia não vai ser só o cheff cozinhando e me ouvindo falar ou vendo a Rayssa preparar os alimentos. A ideia é que as pessoas ponham a mão na massa e vão discutindo a sua relação com a alimentação. As pessoas também contarão histórias sobre a infância delas, como se relacionavam com o doce, quais os doces preferidos… Elas podem esperar um mergulho na infância”.

A cheff Rayssa traz uma convidada especial no módulo que aborda o tema de confeitaria: sua avó. “Minha avó fará parte do nosso grupo ensinando uma receita que marcou minha infância, a famosa bala de côco.Queremos trazer à tona impressões que deixamos de lado”, concluiu.

As receitas do primeiro dia foram a bala de coco, doce de leite em pedaços e bolo de cenoura com chocolate. Os workshops aconteceram no espaço Cowkitchen, uma cozinha compartilhada onde os interessados podem alugar o espaço para workshops e cursos.