CAMPOS DO JORDÃO: CARINHO E TRADIÇÃO

Por  Rodrigo Scalfo Máximo

 

Mais de 1600 metros de altitude! Chegar a Campos do Jordão me traz a mesma sensação de criança. De quando eu vinha a Poços com minha famíla pelos caminhos de Águas da Prata, através da rodovia sinuosa ladeada pela Mata Atlântica que me trazia náuseas por causa do balançado das curvas, mas também me trazia espanto e admiração pela paisagem das montanhas com ar de suntuosidade. Sentimentos e sensações que se perdem ao longo do tempo quando as belezas singelas passam a fazer parte da mistura de vários elementos, da vivência diária e passam por nós banais, sem nossa atenção.

Foi assim que Campos nos recebeu para as festividades de Ano Novo: com sabor de infância, com carinho de família. Também com um frio nublado e uma chuva providencial que cessava nas horas certas para nós, debutantes naquele lugar. Também cravada na Mata Atlântica, Campos foi se desenhando com a subida interminável da Serra da Mantiqueira e nos conduziu por suas ruas até a casa mais hospitaleira e acolhedora que se tem notícia.

A arquitetura de certa parte da cidade, principalmente a turística, é baseada em construções européias e, aliada ao clima de temperatuas frias, confere um charme e uma sensação de aconchego. Sem falar na experiência gastronômia que é única. Campos é um destino para se comer bem.

Na região central da cidade, o bairro do Capivari é onde todos se encontram. Preparada para o turista, congrega diversos restaurantes, bares e lojas. As ruas se tornam calçadões e permitem ao visitante transitar com tranquilidade, sem preocupações, dando uma sensação de segurança, mesmo com o grande fluxo de pessoas – leia-se turistas-, já que todos passam por ali. No Capivari é difícil citar um lugar específico, entretanto, a Baden Baden talvez seja um que deva ser mencionado. É daqueles locais com a cara da cidade e que todo mundo vai te perguntar depois se você foi e se experimentou tal cerveja… Eles têm uma grande produção de  vários tipos de cervejas que podem ser experimentadas no bar no bairro Capivari ou compradas em mercados na cidade.

O Pastel do Maluf é parada obrigatória! São pastéis enormes que valem por uma refeição completa. Se for capaz, coma um sozinho, assim como eu fiz às 6 da tarde. E não consegui comer mais nada pelo resto do dia. Mas, para mim, é só parada mesmo para conhecer e experimentar por uma vez. Há muitas opções a explorar em Campos.

No roteiro turístico, o Palácio da Boa Vista é outro atrativo que deve ser visitado. Alçado no Alto da Boa Vista, dele é possível avistar grande parte da cidade, encravada na mata e nas montanhas. Para nós, a experiência foi apenas até o portão de entrada: o local recebia o governador para a passagem do ano e a visitação estava impedida. Desse local rumamos para o Tarundu, um complexo que oferece atividades de lazer em meio à natureza. É possível passar o dia todo e se esquecer de qualquer outra coisa exterior. Por causa das chuvas que iam e vinham, as atividades externas estavam suspensas, o que frustrou um pouco minha vontade, mas me deu a certeza de querer voltar em breve.

A viagem a Campos foi, sem dúvidas, uma viagem intrigante. Porém, uma das coisas mais intrigantes foi o Museu Felícia Leirner. É um tipo de atração turística que demanda do visitante um comportamento próprio. Permitir-se. O visitante deve permitir-se ser abarcado pela consciência da artista que envolve de maneira singular o local. O Felícia Leirner é um museu a céu aberto e reúne esculturas cunhadas pela artista antes do museu existir, além de outras feitas já no local especialmente criadas para os espaços nos quais estão hoje.

O frio nublado nos trouxe ainda tardes inteiras de chuva e vinhos que foram as mais prazerosas que já passei. A playlist era a rádio da Nora Jones no Spotify. As músicas, algoritmicamente selecionadas por semelhança com o estilo da artista embalou os dias chuvosos de adeus a 2017 com um charme surreal. Debutei com a lareira, uma de verdade, quase como aos moldes antigos que precisa de lenha e cuidados para a constante combustão. Essas imagens do aconchego emolduradas pelo crepúsculo perene e nublado da cidade provocaram um torpor, uma espécie de catarse, algo que sentimos quando os planetas se alinham, ou quando o Cortella explica “sabe com quem você está falando?”, ou quando sentimos que estamos no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas. Tudo isso contribuiu para uma experiência de um nível muito íntimo em que estar naquele cenário potencializou em nós, visitantes, um sentimento de cumplicidade e companheirismo do próprio grupo entre si, mas também entre o grupo e a cidade.

Muito além de ser um destino romântico para casais, Campos do Jordão tem vocação para receber grupos de amigos, famílias com animais de estimação ou excursões de terceira idade. Quem me conhece sabe que eu detesto clichês. Mas, depois que levei o assunto à terapia, fui coduzido a admitir para mim mesmo que esse ódio, na realidade, é amor. Isso mesmo: AMOR. Assim, termino esse relato com uma cena e uma frase que não saíam da minha cabeça enquanto em Campos: no Alasca, Chris está dentro do ônibus 142; depois de toda sua aventura de desbravamento de si mesmo, com um livro em mãos escreve num pedaço da folha “a felicidade só é real quando compartilhada”. Campos é para ser compartilhada com quem a gente gosta.