Por Marcelo Colleoni

Esta pergunta veio da minha filha de 6 anos, que me pegou de surpresa e, mesmo sabendo a resposta, para aumentar a minha surpresa respondi prontamente: não sei!

Esta situação me fez refletir muito sobre isto.

O cenário desta situação foi o seguinte, nas vésperas de enfrentar o maior desafio esportivo da minha vida, ao me despedir dos meus filhos e começar a viagem para enfrentar tal desafio, com a companhia e apoio da minha esposa, eu pedi para eles torcerem por mim, porque mencionei que correria 42km, daí a fatídica pergunta que me desconsertou.

Seguramente a minha pequenina não tinha ideia do por que eu estava fazendo aquilo, apesar do exemplo ser de uma criança de 6 anos, nos deparamos constantemente com situações similares a esta. Quando criticamos, julgamos e questionamos opções realizadas pelas pessoas.

É fato que as pessoas fazem as suas escolhas por serem as melhores para elas. Mesmo sabendo disto, analisamos as escolhas das pessoas como se nossas fossem e aí, o racional muda e com ele, as críticas, os julgamentos e os questionamentos aparecem.

Se todos escolhessem as mesmas coisas, o mundo seria muito monótono e, consequentemente, com poucas inovações.

Precisamos respeitar mais as opções das pessoas e aceitar, mesmo descordando delas. Desejar mudar o propósito de alguém é o mesmo que deixar de fazer o que quer para sua vida.

Para responder e demonstrar o meu racional sobre o questionamento da minha filha, segue o meu propósito, acredito que ao saber já não irá achar tão estanho assim correr uma maratona, ainda que continue não concordando.

Bom, o começo disto vem do meu nascimento. Eu nasci com a perna direita torta e o pé direito virado para dentro, que fez com que eu tivesse que usar botas com barras de ferro para forçar os pés a ficarem em paralelo enquanto dormia. Este fato para mim era normal que ao ganhar meu primeiro sapato, ainda muito pequeno, sem precisar usar mais as botas, eu estreiei como de costume, dormindo com eles.

Adicionalmente ao problema do nascimento, aos 11 anos de idade eu atropelei um carro, isto mesmo, eu atropelei um fusca, corri na direção do carro que não conseguiu evitar a colisão. Bom, para sacramentar o meu problema, o impacto com o carro foi exatamente no joelho direito, sim aquele que nasceu torto.

O resultado, ficou mais evidente a diferença entre as minhas pernas, que hoje tem tamanhos diferentes, a direita tem cerca de 2cm a menos que a esquerda.

A consequência desta situação veio na prática esportiva, onde tive que abandonar vários esportes quando pequeno por não ter resistência no joelho direito. Abandonei o Judô, Ginástica, Vôlei, Bicicross e futebol pela fragilidade do meu joelho. Foi a partir daí que comecei a buscar alternativas para que pudesse conviver com esta situação e conseguir praticar esportes, que tanto gostava.

Foi através do fortalecimento muscular que pude equalizar de alguma forma a fragilidade do joelho. Comecei desde cedo com este intuito e deu certo. Aos poucos senti segurança na prática esportiva e desde então tenho esta filosofia de trabalhar fortemente na prevenção e na minha superação. Este mesmo propósito me guia até hoje, que além da falta de simetria entre os lados esquerdo e direito, eu possuo três hérnias de disco na coluna cervical, que através da prevenção e acompanhamento de profissionais competentes não me impede de fazer o que gosto, que é a prática esportiva. Busco ajuda de forma preventiva e não espero algo acontecer para me cuidar, um trabalho continuo.

Adicionalmente, tenho um objetivo de vida que é chegar bem de saúde, física e mental, quando eu viver só de histórias para contar.

O esporte, no caso específico, a Maratona, é minha maior superação e serve de um grande fator motivacional para outras áreas da minha vida.

Não sei se esta história faz sentido para você, como faz para mim. Da mesma forma suas escolhas, apesar de seguramente ter um racional por trás, para mim pode também não fazer sentido. Eu respeito suas escolhas, pois sei o quão importante elas são para você enfrentar a maratona da sua vida.