Tendo São Paulo como pano de fundo, a banda “As Bahias e a Cozinha Mineira” promoveu um grande encontro de influências e possibilidades

Por: Thais Fernandes

Se o Norte de Minas já é um pedacinho da Bahia que o Sudeste ganhou de presente, melhor ainda se essa mistura se estender até o sul do estado. “Pelo Rafa ser de Poços de Caldas e termos feito muitos shows, a gente construiu uma relação de naturalidade, de ser de alguma forma da cidade”, conta Assucena Assucena, cantora do grupo As Bahias e a Cozinha Mineira, sobre a cidade que recebeu a banda e de onde veio Rafael Acerbi, guitarrista.

A banda traz no nome e na composição os dois estados vizinhos, mas foi se encontrar na capital paulista. “É um pouco assustador. Como diz Caetano, a cidade cosmopolita. Só esse ano eu entendi que São Paulo é a minha casa e Poços é minha saudade”, conta o poços-caldense que faz jus à cozinha mineira da banda.

O trio Raquel Virgínia, Assucena e Rafael se conheceu e se uniu na USP, onde iniciavam seus cursos e encontraram um ambiente cheio de possibilidades para criação artística. Raquel é a paulistana da banda, que morou em Salvador e, por isso, recebeu a alcunha de Bahia, enquanto Assucena veio diretamente de Vitória da Conquista (BA), herdando o mesmo apelido. “Ser Bahia em São Paulo é participar de uma comunidade muito grande e que sofre um preconceito absurdo por vir de onde veio. E é uma questão de classe e de cor, além de tudo”.

A cantora explica que, por ter vindo com estabilidade financeira para a metrópole, teve um tratamento diferente. Mas isso não a impediu de interpretar a maneira como seus conterrâneos eram lidos. “Ouço termos como “baianada” para tratar algo como pejorativo. Mas eu me apropriei do termo e sempre uso para falar de coisas boas. Eu sou uma baiana em SP e tenho muito orgulho disso”, declara.

Gal Costa encontra o Clube da Esquina

A união logo se transformou na banda As Bahias e a Cozinha Mineira. “Quando voltei a compor logo conheci a Raquel, em 2011. Mas, compor, de fato, em uma fase de efervescência, foi quando conheci a obra de Gal Costa, que foi quem apresentou os grandes compositores da música brasileira”.

As influências dali em diante foram de Dorival Caymmi, Cartola, Dona Ivone Lara, Caetano, Gil, Lupicínio Rodrigues, Rita Lee, Marina Lima, Dolores Duran, passando por Elza Soares, Elis Regina, Maria Bethânia, até Amy Winehouse.

Tendo São Paulo como pano de fundo, a banda promoveu em suas músicas um grande encontro de influências. “Sou um militante da música mineira”, dispara Rafael, que iniciou nos palcos de Poços de Caldas, com bandas locais como Aniska e Beatrice. A família de músicos (o avô foi fundador da Orquestra Sinfônica e o pai o inspirou no violão) levou Rafael a ter como base nomes que seguiram na sua caixa de som, entre eles Milton Nascimento, Beto Guedes e, na guitarra, Toninho Horta.

Se na trajetória do guitarrista a família e os movimentos interioranos, como o Coletivo Corrente Cultural, fortaleceram o caminho, para as cantoras as possibilidades baianas reinaram. “Vim de uma terra sertaneja e sofri influência muito grande do cancioneiro popular do sertão da Bahia. Luiz Gonzaga, Dominguinhos, eram sempre muito ouvidos”, comenta Assucena.

Mulher é o mundo

Da lembrança de suas origens, Assucena traz a força da mudança. “Minha família está na minha cidade natal, então o retorno é sempre uma alegria, apesar de ser um lugar muito conservador. Mas, querendo ou não, eu sou filha desse lugar muito conservador”.

Mulheres trans, Raquel e Assucena escolheram olhar de frente para uma sociedade retrógrada e reocupar desde os lugares mais simples até os palcos. “Cada vez mais a gente tem que mostrar o nosso protagonismo, de fato estamos fazendo grande parte da diferença. Sempre fomos invisibilizadas e nos deram os espaços de marginalidade social. Estar debaixo do viaduto na madrugada, com poucas luzes para que as pessoas nos vissem pouco”, pontua a baiana. “Tem muita coisa escondida em um grande ditado das travestis que é ‘bota a cara no sol, querida’. Botar a cara no sol tem um significado sociológico profundo, sobre como não nos permitiam participar de um cotidiano normal da cena urbana. Tem que ter muita coragem de se afirmar para o mundo”, dispara.

Todo o processo pessoal e profissional transformou o primeiro CD da banda, “Mulher”, em uma obra impactante. As faixas, disponibilizadas na internet, ampliaram o alcance dos músicos, que agora têm parceria com revelações como Liniker e os Caramelows e Tássia Reis, no projeto Salada das Frutas e, ainda, um trabalho com Ney Matogrosso. “Enquanto estamos participando do Salada, Ney já foi parte de um movimento que se propunha a expressar a liberdade como princípio”, conta Assucena.

Hoje, o show da banda também está em evolução. “Com as Bahias eu desenvolvi melhor o trabalho com arranjos e, agora, estamos com um show repaginado, com novo cenário e figurino. Trouxemos repertório de Milton e Belchior”, revela Rafael sobre a montagem de Etc e Tal, que tem Xuxa Levy como produtor. “A interação com o público de Poços foi sempre muito boa. Eles são sempre muito receptivos e gostam de boa música. Queremos levar o show para lá em breve”, completa Assucena.

As Bahias