(Progresso???)

Por: Myrthes Maria Matos Dantas

 

A moral engloba o que está vivo na sociedade, nas populações, o que representa a cultura local, o que está no cotidiano das pessoas. A partir da segunda metade do século XX, uma certa pluralidade do ponto de vista das moralidades se instalou em nosso mundo e, no Brasil, isso não é diferente. O pluralismo pressupõe um mundo onde as pessoas pensam diferentemente umas das outras e têm visões éticas e morais variadas sobre cultura, religião, sexualidade etc.

 

No Brasil, uma população pobre, vulnerável sob o ponto de vista educacional, econômico e social, convive com uma minoria autônoma sob o ponto de vista socioeconômico e cultural. O próprio desenvolvimento científico e tecnológico nos últimos anos, acelerado, nos atropela no sentido de moralidade. Do ponto de vista da moral, o que se coloca atualmente é “não vou fazer porque eu não devo fazer” e não mais “não vou fazer isso porque não posso fazer”. Esse mesmo desenvolvimento tecnológico terminou por nos atropelar na questão do tempo que temos para amadurecer os conceitos do que é “moral” ou “ético”. Se antigamente as mudanças e a assimilação, pela sociedade, de determinados conceitos, se davam em décadas, hoje esse processo é quase que imediato. Não temos tempo para nos preparar e pensar com calma no que é certo ou errado. Vamos aos borbotões assimilando, adotando e incorporando os valores impostos pela sociedade de forma pouco crítica e, muitas vezes, alienada. Não dispomos de ferramentas adequadas ou de tempo suficiente para refletir sobre os novos e antigos conflitos morais.

 

O Brasil adota uma posição extremamente conservadora acerca de certos assuntos, conforme se verifica pelo próprio Código Penal vigente: temas como o aborto e a eutanásia, por exemplo, foram legislados em 1940 – 68 anos atrás. Na outra ponta, mulheres são mortas todos os dias devido a abortos clandestinos. Apesar de todo o progresso da medicina de lá para cá, a legislação continua a mesma. No entanto, o próprio conceito da moralidade progride, ou se altera – o que era inaceitável há 40, 50 anos atrás, hoje passa a ser aceito com naturalidade.

 

A grande desigualdade social que se verifica no País provoca distorções éticas as mais diversas, visto que denúncias de corrupção convivem pacificamente com o clientelismo político; a ética jornalística, que estabelece a conduta desejável dos profissionais da área, convive com a dualidade de sua atuação, oscilante entre a do árbitro social, porta-voz da opinião pública e a do empresário comercial sem escrúpulos, que recorre a qualquer expediente para aumentar seus lucros, invadindo a privacidade e dando especial projeção às notícias policiais ou escandalosas, com o único fito de vender mais; o preconceito racial ainda se faz sentir, embora nossa formação seja multiétnica: os indicadores sociais para negros e brancos apresentam discrepâncias significativas.

 

Apesar dos avanços que vivenciamos em várias áreas do conhecimento, no tocante à moral nossa sociedade convive com formas conflituosas e contraditórias de exercício ético: os pobres são mais penalizados nas ações criminais que os ricos, o que pode significar que o poder aquisitivo e/ou posição social ocupada pelo indivíduo tem influência direta em seu julgamento; a população pobre tem menos acesso aos serviços básicos de educação, saneamento, básico, saúde etc, o que pode denotar que o poder exercido pela categoria econômica a que o indivíduo pertence interfere na distribuição dos serviços públicos; os escândalos de corrupção e gansterismo envolvendo os políticos de todos os partidos parece não ter fim, entretanto, ano após ano são eleitos os mesmos políticos para os mesmos cargos ou para cargos de maior poder ainda que o anteriormente ocupado. Vive-se um paradoxo, em que os valores sociais, relacionamentos, necessidades afetivas e o contexto no qual o sujeito está inserido participam da constituição do julgamento moral. Em contraponto, o brasileiro é um povo alegre, festivo, hospitaleiro, receptivo e solidário. Um país onde a miséria impera, embora seja riquíssimo materialmente. Um país onde um alto índice de analfabetismo convive com a maior diversidade cultural do planeta, um país onde existe uma das maiores desigualdades sociais do mundo, com um povo riquíssimo espiritualmente. Uma moral relativista?