Embora a necessidade das práticas sustentáveis seja unanimidade, Terezinha Couto revela as barreiras enfrentadas no dia-a-dia de instituições como a Associação Poços Sustentável

 

Por Thais Fernandes

Sustentabilidade. O termo tem sido empregado nas mais diversas áreas e a necessidade de sua aplicação real tem se mostrado cada dia mais profunda em nossa sociedade. Uma das pessoas preocupadas com esse âmbito na cidade de Poços de Caldas (MG) é a engenheira civil Tereza Couto. Aos 67 anos, Terezinha atua na diretoria executiva da Associação Poços Sustentável, que visa a criação de uma agenda de desenvolvimento sustentável local.

“Fui convidada para compor o Conselho de Administração da APS, em 2010. O convite veio ao encontro de um desejo meu de atuar na área de responsabilidade social e sustentabilidade”, relembra ela, explicando que a APS é uma associação sem fins econômicos, composta de pessoas voluntárias. A iniciativa visa, ainda, a diversidade no interesse coletivo, contribuindo para a criação de uma agenda de desenvolvimento sustentável local, planejando, identificando demandas, colhendo opiniões, desenvolvendo projetos e mapeando indicadores.

Terezinha, como é mais conhecida, não nasceu em Poços de Caldas, mas logo adotou a cidade como sua morada e lar. “Apesar de ter residido em outros estados do Brasil, como Pará, Maranhão, Espírito Santo, por motivos profissionais, sinto-me em casa em Poços de Caldas”, conta ela, que é natural da pequena Alpinópolis. Por lá, ela viveu até os seis anos de idade, mais tarde foi para Alfenas, onde cursou os ensinos fundamental e médio. “Meu encantamento por Poços começou na década de 70, quando minha família se mudou para esta cidade que me cativou para sempre”.

A partir de 2011, Terezinha passou a atuar na Diretoria Executiva da Associação. “Acredito que o trabalho voluntário nasça de nossa vontade de tornar melhor o mundo ao nosso redor. Ao mesmo tempo em que procuramos causar algum impacto na vida das outras pessoas e no ambiente em que vivemos, nossas ações impactam na maneira como passamos a perceber a realidade que nos cerca. É uma troca contínua, um aprendizado que nos enriquece a cada dia”.

O foco ganhou, ainda, a vida acadêmica da engenheira, que cursou Pós-Graduação em Responsabilidade Social Empresarial. Mesmo tendo outras atividades, Terezinha se dedica amplamente ao trabalho voluntário na APS, que já toma grande parte do seu tempo. “Apesar do número reduzido de associados atuantes, a APS possui representações em vários conselhos, redes e fóruns, onde procura influenciar as decisões sempre tomadas da maneira mais justa, democrática e sustentável, e ao mesmo tempo recebe influência, no sentido mais amplo, seja trazendo novas informações que podem mudar o foco de seus projetos ou agregando novas parcerias para a realização de suas atividades”.

Desafios da sustentabilidade

Mas, embora a necessidade da sustentabilidade seja uma questão unânime, na prática as ações para implantá-la têm barreiras. “Os desafios enfrentados por profissionais que se dedicam ao terceiro setor são inúmeros. No caso específico da APS, cuja missão é ‘sensibilizar e mobilizar os vários setores de nossa sociedade para contribuir na construção de uma cidade mais justa e sustentável’, os desafios começam pela própria identidade da associação. É um trabalho que vislumbra mudanças em longo prazo, a construção de uma consciência voltada para o despertar nas pessoas do sentimento de pertencimento à cidade, dos princípios de cidadania e da nossa responsabilidade na construção da cidade que queremos para nós e para as próximas gerações”, destaca Terezinha.

Problemas ocasionados pela falta de investimento nesses setores, inclusive, já tem se materializado no presente. “Estamos enfrentando questões sociais e ambientais críticas, como mudanças climáticas, aquecimento global, desigualdade social, entre outras, que devem nos levar a refletir sobre a maneira como estamos vivendo, nossos hábitos e atitudes. A campanha da APS que perpassa todos os nossos eventos, ‘Sou cidadão. Sou Poços de Caldas’, busca fortalecer nos cidadãos locais o sentimento de pertencimento à cidade e o despertar da responsabilidade individual por buscar soluções para as questões que enfrentamos atualmente. Sabemos que há necessidade de soluções globais que dependem de grandes poderes que vão além de nosso município, mas acreditamos também que 150.000 pequenas ações voltadas para a preservação do meio ambiente, redução do desperdício, cultura de paz, entre outras, possam fazer uma grande diferença. A cidade ideal pode estar distante, mas uma cidade melhor é possível”.

Nos últimos meses, com o agravamento de problemas estruturais no centro da cidade, Terezinha explica a importância de uma análise profissional profunda da região. “As enchentes recentes ocorridas em Poços de Caldas, que causaram tanto estrago no centro da cidade, são resultados não somente de um fenômeno esporádico, alto índice de precipitação num curto espaço de tempo, mas também do pouco cuidado com a preservação ambiental, principalmente urbana, ou seja, alta impermeabilização do solo, desrespeito com o cuidado mínimo necessário na preservação das margens dos cursos d’água, descarte indevido de materiais nos leitos dos ribeirões, entre outras causas. A partir de agora, torna-se necessário um estudo das causas e a elaboração de um plano diretor de planejamento urbano que inclua a prevenção de enchentes, entre outras questões associadas, como a macrodrenagem dos cursos d’água que compõem a microbacia da região de Poços de Caldas”, detalha Terezinha.

Projetos do ano

A engenheira, que divide seu tempo entre o trabalho voluntário junto a APS, e sua empresa de consultoria na área de Recursos Humanos, Responsabilidade Social Empresarial, Sustentabilidade e Tradução, conta os planos da Associação para este ano. “A quinta edição do projeto Giro Sustentável,  deverá acontecer entre setembro e outubro, em parceria com a OSCIP Planeta Solidário, para o qual estamos buscando apoio e patrocínio”.

Terezinha revela, ainda, outro projeto, em fase de aprovação de patrocínio, chamado “Diálogos para a Sustentabilidade”, com encontros abordando temas como Mobilidade Urbana, Coleta Seletiva e Reciclagem, Água, Meio Ambiente, cujo objetivo é criar um espaço para discutir e buscar sugestões de ações concretas e viáveis para as questões ambientais e sociais que apresentam dilemas para as pessoas de nossa época.

Os encontros devem acontecer no segundo semestre de 2016 e primeiro semestre de 2017. A agenda de eventos da APS inclui também diálogo com os candidatos a Prefeito de Poços de Caldas, quando proporá a assinatura de Carta de Compromisso para a implantação da plataforma Programa Cidades Sustentáveis, englobando levantamento de indicadores que possibilitem o diagnóstico das áreas críticas na gestão pública municipal e a elaboração do Plano de Metas, já previsto na Lei Orgânica Municipal. Os indicadores, a partir deste ano, estarão associados aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, abrangendo doze eixos temáticos da gestão pública, como governança, educação, saúde, meio ambiente, mobilidade urbana, entre outros.

A diretora da APS frisa que a associação é aberta a todos os cidadãos poços-caldenses que tenham comprometimento com a sustentabilidade. “Convido a todos para que venham trazer suas experiências, seus talentos, seus exemplos de ações já sendo realizadas e nos ajudar nesta construção coletiva da cidade que queremos para nós, nossos filhos e netos, enfim para as próximas gerações.  Uma cidade mais justa, democrática e sustentável”, conclui.