A dançarina flamenca Alessandra Kalaf não teve como fugir. A dança lhe disse logo cedo que o palco seria o seu lugar.

 Por Thais Fernandes

 

Ainda uma criança, Ale Kalaf não sabia muita coisa, mas já sabia que ia ser bailarina. O encantamento se iniciou cedo, quando ainda frequentava a escola Sete de Setembro e a ‘tia’ Flávia apresentou a dança a ela. Foi no espaço infantil que a pequena bailarina descobriu a forte ligação com a dança. “Foi muito intenso o sentimento de estar em um lugar que te pertence”, conta.

Aos 12 anos, a poços-caldense decidiu buscar mais conhecimento e, para isso, alçou novos voos. Com o apoio da avó, que residia em São Paulo (SP), ela viajou para fazer um workshop de jazz na maior metrópole brasileira. A viagem trouxe novas inquietações e no retorno a ao Sul de Minas, Ale realizou cursos de ballet clássico no Conservatório Municipal. Lá, conheceu uma das figuras mais importantes de sua vida.

Luciana Valverde lecionava o estilo clássico com o jeito mais contemporâneo que Ale assistiu em toda sua carreira, revela. “Até hoje, tudo que estudo sobre dança contemporânea ainda é como se fosse reflexo do que aprendi com a Lu”, conta com carinho. Luciana percebeu também o potencial da pupila e, abriu as portas da própria profissão para Ale.

Com apenas 15 anos, a bailarina se tornou também professora. Ale passou a dar aulas de jazz e ballet clássico no Conservatório de Poços de Caldas, onde seguia fazendo aulas. “No Conservatório recebi meu primeiro salário! Depois disso, também comecei a dar aulas no Colégio Objetivo, onde recebia bolsa de estudo”.

A dança se agigantava cada vez mais na vida de Ale que, guiada por Luciana, passou a frequentar aulas na cidade de Campinas. As viagens constantes se tornaram rotina e surgiu um novo grupo, o Entre Nós. “Nós montamos esse grupo de dança e viajamos de kombi para praticamente todos os municípios ao redor de Poços!”, lembra a bailarina. Foi nessa época que Ale aprendeu a coreografar e desenvolver os espetáculos sob outra ótica.

Foram anos de estudo nas melhores escolas de dança de São Paulo, mas o ensino superior ainda não oferecia cursos voltados diretamente para esta arte, e a bailarina iniciou a faculdade de Artes Plásticas. “Bastou um semestre para eu ver que minha falta de habilidade com desenhos não permitiria mais essa formação”, conta bem-humorada.

Flamenco, uma nova emoção

Apesar de já saber que era no palco o seu lugar, Ale não podia imaginar que ainda se surpreenderia com um novo amor. De férias no México, ela descobriu o flamenco. “Eu tinha 19 anos e minha tia Denise, que é uma cantora maravilhosa e mora lá, me levou para um tablado flamenco”. Na casa de shows típica, parecia que o flamenco também a descobria. “Fiquei louca, me apaixonei! Foi uma emoção que nunca tinha sentido”. O impulso foi tão forte que no mesmo dia Ale conversou com as bailarinas e no dia seguinte já iniciava aulas com professora Cristiane Aguirre.

A necessidade de entrega ao novo estilo musical levou Ale a deixar trabalho e faculdade no Brasil e permanecer por seis meses no México. O período foi de redescobertas diárias, mas a bailarina lembra que todas as outras danças ajudaram a compor uma linguagem mais genuína para o flamenco que ela iniciava.

O retorno para o Brasil foi direto para o encontro de outros dois bailarinos especializados em flamenco: Yara Castro e Fernando de La Rua. “São dois maestros com os quais passei dois anos como aluna, depois passei a participar do grupo e, por fim, tive oportunidade de ser professora no Espaço Yara Castro”.

A busca por mais experiências no flamenco levou Ale ao Velho Continente. Ela não só foi a Espanha para cursos, como estudou com diversos bailarinos espanhóis lá e aqui, entre eles, Rafaela Carrasco, Manuel Liña, Concha Jareño e Carmen Talegona. A bailarina ainda buscou um curso de nível superior e em meio a toda dança, se formou em Psicologia.

Ale celebra todo apoio que recebeu das pessoas mais próximas. “Foi incondicional o apoio de meus pais Jefferson e Tata Kalaf, minha avó e minha tia Denise”. E foi em meio a toda essa trajetória, que a artista conheceu o companheiro que a instigaria a ir mais além. “Meu marido, quando me viu dançar pela primeira vez me fez parar tudo e entender que tinha que viver da dança, desta arte que ele entendeu que era minha vida”, relembra. “Tivemos dois filhos, a Alice, 3, e o Joaquim, 7, e durante a gravidez dos dois eu dancei até 8 meses de gestação”.

Estúdio dedicado à arte flamenca

Há dez anos, a essência da música que tocou Ale ganhou corpo físico no Estúdio Ale Kalaf. O espaço é dedicado à dança e arte flamenca. As aulas são organizadas em níveis semestrais e a cada nível um ritmo de flamenco é abordado. Para disseminar essa linha musical, Ale escalou uma equipe de sete profissionais e já reúne uma média de 40 alunos.

O trabalho em diversas camadas permite, ainda, que a bailarina organize e se apresente em três espetáculos. O primeiro vem de uma parceria que surgiu ainda em 2001. O Grupo Luceros é formado pelo trio Ale, André Pimentel e Priscila Grassi e, desde 2006, vem desenvolvendo uma pesquisa de movimentação flamenca e musicalidade brasileira com o compositor e músico Toninho Ferragutti. “É muito bacana essa parceria! Ainda contamos com a direção da Clarisse Abujamra e figuro de Fause Haten”.

Outro espetáculo montado pela artista leva um título forte. “Con Alma” convida a ouvir composições da musicista espanhola Irene Atienza, mas não só. A ideia é que se experimente a mistura do ritmo flamenco também com compositores brasileiríssimos como Vinícius de Moraes. “É uma brincadeira muito gostosa essa mistura de uma bailarina brasileira dançando flamenco e uma musicista espanhola tocando e cantando compositores brasileiros”, afirma Ale.

“Quero muito levar a Poços este espetáculo!”, destaca. A vontade se repete para todos os shows em que atua. “Nós viajamos por tantos lugares levando estas apresentações. Tenho esse sonho de levar a minha terra essa arte que tanto me toca e, tenho certeza que vai se realizar”, declara Ale, que não deixa de visitar constantemente as terras sul-mineiras, onde os pais residem e onde não deixa de frisar: ainda vai apresentar o melhor de tudo que estudou e viveu no flamenco.

A alegria de quem faz da arte, uma inspiração.

A alegria de quem faz da arte, uma inspiração.

Ale Kalaf e sua paixão pelos palcos.

Ale Kalaf e sua paixão pelos palcos.