Os estereótipos mais complicados de serem rompidos são aqueles tão ancestrais que parecem vindos das cavernas. Afinal de contas, quem ousa discutir com a anatomia e a fisiologia? As fêmeas vão carregar os bebês e os machos vão ter força física superior, a ponto de abaterem a caça com as próprias mãos. Ninguém fantasiou isso.

Mas se a sociedade nos mostrou algo, é que é bastante fácil ampliar essa noção e determinar que todos os estereótipos de gênero também surgiram lá no início da evolução humana.

Para grande parte das famílias, é crucial saber cedo o gênero do bebê, já que todo mundo tem que ter noção na hora de comprar roupas e brinquedos de presente. E aí, quase instantaneamente após o nascimento, a criança é vestida no seu uniforme, rosa para as meninas e azul para os meninos. Só que não foi sempre assim.

Até o começo da Primeira Guerra Mundial, ninguém se importava com a cor da fralda das crianças, até porque é difícil se preocupar com isso quando se tem tantas outras questões facilmente priorizáveis: a guerra civil, a mortalidade infantil extremamente alta, cólera… Sim, eram tempos difíceis.

Mas, para o bem de todos e felicidade geral, em 1910, todas as questões de gênero foram gentilmente resolvidas quando se determinou que rosa seria para meninos e azul para meninas, sim, você leu certo, rosa para os meninos e azul para as meninas, rosa era uma cor mais decidida e forte, logo mais adequada para meninos, enquanto o azul era gracioso e delicado, a cara das meninas, aham!

As coisas começaram a mudar em 1927, quando aconteceu uma discordância sobre qual gênero deveria usar qual cor. Houveram revistas famosas que até listaram quais lojas defendiam cada opção, só em 1940 os publicitários decidiram trocar e o rosa foi para as meninas e azul para os meninos, BINGO! E pronto, esse belíssimo estereótipo se perpetuou.

E aquele outro que a gente adora falar pros meninos quando estão sofrendo por qualquer motivo? “Ei, deixa disso cara, homem não chora!”. Um cara chorando num filme, só pode significar duas coisas: Ou ele perdeu o controle, ou faz o tipo romântico e afetuoso (essas características que presumimos pertencer às mulheres). É natural vermos esses homens que choram como fracos e tolos, ou se você preferir, como mocinhas covardes!

Mas em outros tempos, um dos grandes sinais de masculinidade era derramar lágrimas, isso porque na Grécia antiga era esperado que homens chorassem se a honra de sua família estivesse em jogo. Odisseu – aquele cara que matou um ciclope e venceu a guerra de tróia – vivia derramando lágrimas, mas só deve ter chorado uma vez porque ouviu uma música triste. E se pra você não cola, afinal era na Grécia antiga, né? Todo mundo era meio andrógino por lá, saiba que essa ideia foi muito comum em muitas culturas, da idade média até o romantismo, heróis medievais e samurais japoneses choramingavam como bebês em suas peripécias, lágrimas masculinas eram solenes e festejadas como um sinal de honradez, integridade e dignidade. E não apenas com sentido de “você é forte o suficiente para mostrar sua fraqueza!”, mas sim como uma representação de que você realmente dava a mínima. E provavelmente também significava que você sabia que ninguém iria te zoar, já que você tinha acabado de vencer uma batalha ou arrancar os membros de um monstro com suas próprias mãos.

E aí quando a gente para pra olhar pra história, acaba percebendo que a gente não precisa sofrer quando dizem que algo que nós fazemos não é masculino ou feminino o suficiente. Pode até não condizer com o que é esperado de nós, mas é fato que às vezes a única coisa que impede essas críticas de serem o completo oposto é o número que aparece no calendário.

 

Por: Laryssa Matos Dantas